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Mercados Emergentes em Alta: o Rali É Sustentável em 2026?
Após superar os papéis dos EUA pela primeira vez em quase uma década, fatores favoráveis reforçam a tese de que o rali pode se estender para este ano
Após anos de desempenho fraco, as ações de mercados emergentes protagonizaram uma recuperação expressiva em 2025, superando os papéis dos Estados Unidos pela primeira vez em quase uma década. No Brasil, o Ibovespa fechou o ano com alta de quase 34%
O avanço reacendeu a dúvida: trata-se apenas de mais um movimento passageiro ou do início de uma era mais duradoura?
Para investidores experientes em mercados emergentes, o rali tem aparência cada vez mais estrutural, e não efêmera. A convergência de diversos fatores favoráveis fortaleceu a tese de que o movimento pode se estender para 2026, ainda que o consenso seja de que o sucesso dependerá de seletividade — e não de apostas amplas e indiscriminadas na classe de ativos.
Um rali com bases mais sólidas
Joyce Chang, presidente de Pesquisa Global do J.P. Morgan, afirmou: “Acredito que seja mais do que algo pontual, em parte porque entendemos que a história de enfraquecimento do dólar é, neste momento, um alicerce bastante robusto, e um ciclo de desvalorização da moeda americana é fundamental para os mercados emergentes.”
O dólar encerrou o ano com sua queda mais acentuada desde 2017, e analistas e traders avaliam que cortes mais profundos nos juros podem provocar novas desvalorizações.
Ao mesmo tempo, as moedas de mercados emergentes registraram uma valorização ampla: 17 das 23 acompanhadas pela Bloomberg se fortaleceram frente ao dólar neste ano, à medida que investidores passaram a diversificar suas carteiras para fora dos Estados Unidos em meio à turbulência política.
Os ganhos cambiais vieram acompanhados de um desempenho excepcional dos ativos emergentes de forma mais ampla. Os índices de títulos em moeda local e em moeda forte caminham para retornos de dois dígitos, enquanto as ações avançaram mais de 30% em 2025.
Varun Laijawalla, gestor de portfólio de mercados emergentes na Ninety One, também aponta o dólar mais fraco como uma entre várias tendências estruturais relevantes. Ele observa que, em nove dos últimos dez anos em que a moeda americana se desvalorizou, as ações de mercados emergentes apresentaram retornos positivos, com ganho médio em torno de 31%. Esse padrão histórico voltou a se repetir em 2025, quase de forma exata.
Chang ressalta ainda que “os mercados emergentes hoje apresentam déficits fiscais menores do que os mercados desenvolvidos”, afirmando que “algumas dinâmicas de endividamento são, na prática, mais sustentáveis do que nas economias desenvolvidas, além de as avaliações estarem muito competitivas.”
Em outras palavras, as vulnerabilidades macroeconômicas tradicionais — nas quais os mercados emergentes eram vistos como fiscalmente frágeis e estruturalmente arriscados — começaram a se inverter.
“A gestão macroeconômica, de modo geral, está em um patamar sólido nos mercados emergentes”, afirma Chang, acrescentando que “ainda existe algum espaço adicional para afrouxamento monetário por parte dos bancos centrais”. Isso, somado ao retorno dos fluxos de capital para essas economias, as deixa “bem posicionadas para o próximo ano.”
Um ano de mudanças — com ressalvas
Laijawalla descreve 2025 como “um ano de transformação”. Segundo ele, essa mudança ocorreu em várias frentes simultaneamente. “As ações de mercados emergentes superaram as globais, o dólar sofreu uma queda acentuada e as ações chinesas se recuperaram após um longo período de desempenho inferior.”
Ao olhar para frente, ele estrutura sua análise com base no que chama de “manual histórico” da performance superior dos mercados emergentes.
“O cenário em que os mercados emergentes costumam ter melhor desempenho ocorre quando o ambiente macroeconômico global e de liquidez é benigno, o crescimento dessas economias supera o dos mercados desenvolvidos, os juros estão elevados, mas em trajetória de queda, e há um crescimento ‘Cachinhos Dourados’ no mundo desenvolvido — nem em forte deterioração, nem em aceleração excessiva”, afirma Laijawalla.
Pelos próprios critérios de Laijawalla, muitas dessas condições já estão presentes na entrada de 2026. Se o ambiente macro cria o pano de fundo, os fluxos de capital podem determinar a magnitude dos próximos anos.
Malcolm Dorson, chefe de Estratégia de Mercados Emergentes da Global X, argumenta que o rali de 2025 nunca foi exclusivamente sobre mercados emergentes de forma isolada. “Não foi apenas uma história de mercados emergentes”, afirma. “Foi uma história internacional.”
Anos de desempenho superior dos Estados Unidos deixaram os portfólios globais excessivamente concentrados, e Dorson acredita que o pêndulo começa a se mover novamente em direção à diversificação. Ele também cita “um ambiente de dólar mais fraco, uma convergência nas avaliações e ajustes de posicionamento” como motores importantes. “Quando esses ventos favoráveis passaram a se alinhar para a exposição internacional e a mercados emergentes, o movimento foi bastante intenso.”
Ainda assim, apesar da alta, “a maioria dos alocadores continua em uma classe de ativos que consideramos descontada, com crescimento acima da média e catalisadores relevantes à frente”, diz ele.
Ao relembrar o ciclo de forte desempenho dos mercados emergentes do início até meados dos anos 2000, Dorson afirma que “ninguém quer se ver novamente naquela posição de praticamente não ter exposição a uma classe de ativos que pode performar muito bem.”
“Nem é necessário que os investidores fiquem otimistas em relação aos mercados emergentes para que eles tenham um bom desempenho”, acrescenta Dorson. “Basta que as pessoas retomem o básico e voltem a diversificar.”
Segundo ele, isso implica que muitos investidores terão de dobrar ou até triplicar suas alocações — fluxos que podem beneficiar de forma desproporcional mercados menores, como Colômbia ou Grécia, por meio de reprecificações.
Laijawalla concorda. “Se você retirar mecanicamente 5% das alocações no mercado dos Estados Unidos e direcionar esses 5% para mercados emergentes, isso representaria algo em torno de 30% de entrada líquida nesses mercados”, afirma.
Vantagens?
Chang, por sua vez, descreve os mercados emergentes como uma oportunidade de “singles e doubles” — ganhos consistentes, ainda que modestos.
À medida que crescem as preocupações com avaliação das ações nos Estados Unidos, especialmente em inteligência artificial e tecnologia, “os mercados emergentes se destacam porque não estão saturados, a gestão econômica tem sido adequada e as alocações ainda são relativamente pequenas.”
“Em um momento em que as ineficiências de preço nos mercados desenvolvidos são escassas”, acrescenta, “é preciso buscar singles e doubles, e não necessariamente home runs — e os mercados emergentes se encaixam bem nessa lógica.”
Laijawalla também chama atenção para uma característica importante do rali até aqui. “Não houve, de fato, uma surpresa positiva relevante nas expectativas de crescimento dos lucros”, diz ele. “Grande parte do movimento veio da expansão dos múltiplos.”
Isso significa que os investidores estão pagando mais pelos mesmos lucros. Caso um crescimento mais robusto dos resultados se concretize, o rali pode entrar em uma segunda fase mais sustentável.
Essa distinção é relevante, segundo Andrew Keiller, sócio da Baillie Gifford, que alerta para o risco de confundir uma reprecificação generalizada com um mercado atrativo.
Embora a oportunidade em mercados emergentes seja real, ele defende a seletividade em vez de uma exposição ampla ao índice. “Investir no índice de mercados emergentes é a coisa errada a se fazer”, afirma. “Não dá para simplesmente encher a carteira com qualquer empresa de um mercado em crescimento e esperar bons resultados.”
“Os mercados emergentes são um ambiente excelente para seleção de ações”, acrescenta, observando que o universo de empresas de classe mundial e companhias de alta qualidade em ascensão cresceu ao longo da última década.
Ele cita líderes consolidados como TSMC, Samsung e Tencent, além de novos destaques como o Nubank, no Brasil, Didi e Luckin Coffee, na China, Sea Limited, no Sudeste Asiático, e Impala Platinum, na África do Sul.
Para quais mercados emergentes os investidores estão olhando?
A América Latina aparece com destaque nas discussões dos investidores para 2026. Dorson é particularmente construtivo em relação ao Brasil. “O Brasil é uma das nossas principais apostas para 2026”, afirma. “Trata-se de uma tese de investimento em duas frentes, baseada em política monetária e política institucional.”
Ele aponta juros elevados, inflação em desaceleração e a possibilidade de um ciclo de afrouxamento monetário. Historicamente, observa, os mercados acionários costumam reagir com fortes altas durante períodos de corte de juros. Dorson também destaca a eleição presidencial brasileira de outubro de 2026 como um evento-chave.
Keiller, da Baillie Gifford, também enxerga potencial. “O Brasil é hoje nossa maior posição acima do índice”, afirma. “Há condições macroeconômicas atrativas e uma oportunidade de investir em algumas empresas realmente boas em um momento em que o país tem espaço para reduzir juros, já que a inflação foi controlada.”
Com o posicionamento doméstico ainda modesto, os investidores veem o Brasil como um mercado em que mudanças na política de juros e na direção política podem ter impacto desproporcional sobre os preços dos ativos.
A Argentina representa uma versão ainda mais extrema da narrativa de baixa alocação. Dorson aponta para uma relação entre valor de mercado e PIB em torno de 12%, em comparação com cerca de 42% no Brasil e mais de 200% nos Estados Unidos.
A Índia, por sua vez, segue sendo um caso mais controverso. Dorson a descreve como “uma mola comprimida”, argumentando que fundamentos sólidos têm sido contidos por tensões comerciais. “Algum tipo de acordo comercial poderia realmente destravar esse mercado”, afirma.
Laijawalla oferece uma leitura diferente. “A Índia é quase o oposto da tese de inteligência artificial, uma espécie de proteção”, observa.
Keiller adota uma postura cautelosa. “A Índia ainda nos parece mais cara”, diz, destacando a tensão entre o apelo estrutural de longo prazo do país e suas avaliações no curto prazo.
Quanto à oportunidade mais ampla, Keiller aponta para a convergência de diversos fatores. “A diferença nas condições macroeconômicas entre mercados desenvolvidos e emergentes diminuiu, e alguns dos ventos contrários dos últimos anos se inverteram.”
Essa combinação, segundo ele, torna a oportunidade duradoura, e não passageira. “O fato de ter sido um bom ano não significa que o investidor já perdeu o movimento.”
Apesar do interesse renovado, os mercados emergentes estão longe de estarem congestionados. “Menos de um terço dos fundos globais está sobrealocado em mercados emergentes”, acrescenta Keiller. “Não acreditamos que isso seja algo de curto prazo. Pelo contrário, vemos muitos anos positivos pela frente.”